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Os Quatro Factos Verdadeiros da Vida

“Tendo vivido na Índia há 2.500 anos atrás, o Buda foi alguém que se libertou a si próprio de toda a confusão e, portanto, se tornou capaz de usar todo o seu potencial para beneficiar os outros. Ele atingiu este estado iluminado, ou desperto, ao entender a realidade, nomeadamente o que é que é verdade na vida. Primeiro, ele viu a verdade do sofrimento. Contudo, a forma comum de expressar este primeiro facto, de que “a vida é sofrimento”, parece bastante ameaçador e pessimista, não deixando transparecer a verdadeira intenção do Buda. O que ele viu na realidade, foi que ninguém que olhe verdadeiramente para a vida, pode negar que ela é difícil.
Nada na vida é fácil. Não é fácil viver em sociedade, ter um trabalho ou constituir uma família. Por muito desafiantes que estes aspetos normais da vida sejam, nós tendemos a torná-los ainda mais difíceis do que o necessário. Por exemplo, nós tendemos a estar tão nervosos, chateados e preocupados com tudo, que não gerímos as dificuldades porque passamos na vida de forma tão fluída quanto poderíamos. Sempre tensos, fazemo-nos não apenas a nós próprios, mas também a todos os que nos rodeiam, infelizes.
O Buda explicou que a causa mais profunda pela qual nós tornamos a nossa vida mais difícil do que aquilo que ela já é, tem que ver com a nossa falta de consciência, ou “ignorância”.

Este é o segundo facto da vida – a verdadeira causa do nosso sofrimento. Esta falta de consciência pode ser sobre a causa e consequência dos nossos comportamentos, ou sobre a realidade, e nós podemos não estar conscientes de nenhuma das duas, simplesmente por desconhecimento, ou podemos, além disso, apreender ambos estes tópicos de forma incorreta. Este ato de “apreendermos algo”, normalmente traduzido por “apegarmo-nos a algo”, significa tornarmo-nos conscientes de um objeto de uma determinada forma. Como apreendermos a realidade de uma forma incorreta é a causa raiz de todos os problemas na nossa vida, nós vamo-nos referir a esta falta de consciência, neste contexto, como estarmos “confusos sobre a realidade”.
Estando confusos sobre a realidade, nós naturalmente sentimo-nos inseguros, ficando nervosos e tensos. Nós tendemos a tornar um enorme problema as pequenas dificuldades da vida, como conduzirmos até ao trabalho ou deitarmos os nossos filhos, pelo que nos tornamos cronicamente stressados. Claro que nós temos que nos preocupar com a nossa vida e tomarmos conta das nossas responsabilidades, mas não há qualquer necessidade de nos limitarmos a nós próprios, estando constantemente preocupados e cronicamente ansiosos. Estas preocupações e ansiedades apenas nos irão impedir de efetivamente gerirmos adequadamente a nossa própria vida, e não nos levarão no sentido da nossa felicidade e serenidade mental. Parafraseando o mestre Indiano do século VIII Shantideva, “Se há algo difícil na nossa vida que nós podemos mudar, então porquê preocuparmo-nos? Simplesmente façamos essa mudança. Mas se não há nada que nós possamos mudar, então porquê preocuparmo-nos? A preocupação não ajuda.”
Quando nos sentimos tensos, seja por uma situação específica como estarmos presos no trânsito, ou por algo que não conseguimos explicar, como quando estamos simplesmente de mau humor, nós tendemos a externalizar esta tensão. Nós expressamo-lo e talvez contagiemos até quem nos rodeia, mas mais importante do que isso, a um nível mais profundo, nós confundimos a nossa tensão com algo sólido e projetamo-la para todas as situações em que nos encontramos. A nossa mente cria uma aparência do engarrafamento no trânsito, e mesmo do facto de termos de nos levantar de manhã, como se estas fossem provações monstruosas e sólidas. A mente faz surgir estas aparências como se a sua própria natureza as tornasse verdadeiras e inerentemente stressantes, independentemente de quem as possa experienciar. Além da mente automática, e inconscientemente, originar estas aparências destas coisas desta forma, nós podemos ainda permanecer nestas aparências com pensamentos mórbidos e incontrolavelmente recorrentes, reforçando a nossa crença de que estas aparências são verdadeiramente reais. Tudo parece tão tenso e stressante, que parece que a vida é como uma enorme armadilha para ursos, algures “lá fora”, e que nós somos apanhados de forma inexorável e apertada, na sua crueldade.
O Buda explicou que esta confusão sobre a realidade – o facto de nós imaginarmos que tudo existe de forma igual à aparência que a nossa mente cria dessa mesma coisa – é a causa raiz de todos os nossos problemas. Desta forma, nós tornamos os aspetos já difíceis da nossa vida, ainda mais difíceis para nós. Não nos parece que a tensão que sentimos é meramente a experiência de uma situação, mas sim que é algo verdadeira e realmente parte da situação em si mesma. Se uma situação fosse inerentemente produtora de stress, então não haveria forma de evitarmos ficar stressados com ela. Mas enquanto experiência pessoal de uma situação, o stress surge dependente de muitos fatores psicológicos e não é inevitável. A menos que entendamos isto bem, nós vamo-nos condenar a nós próprios ao stress incessantemente.
É certamente difícil viver numa cidade lotada e ficar preso no trânsito, barulho e poluição todos os dias, já para não mencionar ser uma possível vítima de algum crime. Ninguém pode negar isso. Mas quando nós construímos uma imagem mental fixa e concreta de uma cidade como algo assustador, horrível e cheio de stress que existe “lá fora”, e que se impõe como um monstro a este pobre eu, uma vítima que existe “aqui dentro”, então nós tornamos a nossa vida ainda muito mais difícil. A cidade que existe na nossa mente e que nós projetamos para as ruas parece ainda mais sólida e real, do que a cidade que é realmente construída com cimento. Desta forma, a nossa crença de que a nossa imagem mental é a verdadeira realidade, gera toda a nossa tensão e stress. Infelizmente, muitas pessoas veem não apenas os sítios onde elas vivem, mas toda a sua vida, desta maneira.

O Buda ensinou que não é inevitável que nós experienciemos sintomas dolorosos como estes. É possível que estes sintomas e as suas causas cessem, não apenas temporariamente, mas para sempre. O seu verdadeiro fim, ou cessação, equivalente à sua remoção total, é o terceiro facto verdadeiro da vida – a verdadeira “cessação” do sofrimento e das suas causas. Se nós eliminarmos a recorrência das causas do sofrimento, nós iremos definitivamente experienciar a ausência do sofrimento que teria surgido, como consequência dessas causas. Sem uma causa, um resultado não pode surgir. Além disso, como a causa raiz da recorrência dos nossos problemas é a confusão com que nós imaginamos que as coisas realmente existem da maneira impossível como a nossa mente confundida as faz enganosamente parecer existir, é possível eliminarmos a recorrência desta causa. Isto acontece porque esta confusão não pode ser verificada. Baseada em fantasia, não em factos, ela não tem um fundamento sólido e, portanto, não consegue suportar um escrutínio mais próximo. Por isso mesmo, um final verdadeiro pode definitivamente ocorrer.

Contudo, para nós realizarmos um verdadeiro fim dos nossos problemas e das suas causas, nós temos de proactivamente fazer algo para que este fim aconteça. Caso contrário, devido aos nossos fortes hábitos, nós vamos continuar a tornar a nossa vida miserável – por exemplo, ao gerar tensão vez após vez após vez. Dado que a causa raiz do nosso sofrimento é uma mente confusa, nós temos de a substituir permanentemente com um estado não-confuso, para que essa confusão não volte a surgir. Estes estados não-confusos de mente com os quais nós vemos a realidade são o quarto facto verdadeiro da vida – os verdadeiros caminhos da mente, ou os verdadeiros caminhos. Por isto mesmo, não é suficiente mascarar o problema do stress por exemplo, ao tomar um medicamento ou uma bebida. Nós temos de nos libertar, ou “abandonar” a confusão com que nós acreditamos em que, de alguma forma, a tensão existe “lá fora”. Nós temos de substituir a confusão por um entendimento correto, por exemplo, entendendo que a tensão é uma criação da nossa mente.
As nossas atitudes mentais podem ser mudadas muito mais facilmente do que o mundo todo. Para parafrasear novamente Shantideva no contexto da sua discussão sobre a paciência, “É impossível cobrir toda a superfície áspera do mundo com couro. Mas, ao cobrirmos os nossos próprios pés com couro, nós atingimos o mesmo resultado.” Assim sendo, para nos libertarmos a nós próprios dos nossos problemas na vida e podermos ajudar os outros o mais possível, é crucial que entendamos a natureza da realidade das aparências que experienciamos, e fazê-lo em termos da relação destas aparências com a mente.”

Fonte: “The Gelug/Kagyu Tradition of Mahamudra”, Dalai Lama e Alexander Berzin