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Budismo desmistificado

Por Matthieu Ricard, 2-abril-2018

“O Budismo é frequentemente descrito como sendo uma filosofia, uma religião ou uma forma de viver, entre outras coisas. Mas quais são os pontos-chave que definem o Budismo, de acordo com o próprio Buda, e com os mestres qualificados cujos comentários iluminam os seus ensinamentos?

1. O principal objetivo do Budismo é aliviar o sofrimento em todas as suas formas.
2. Para atingir este fim, é essencial identificar as causas do sofrimento em diferentes níveis. Todas estas causas têm a sua base na ignorância. Esta ignorância resulta em estados mentais aflitivos, que afectam as nossas palavras e acções. Alguns destes estados mentais aflitivos incluem a aversão, o desejo, a falta de discernimento, o orgulho e a inveja.
3. Nós podemos aliviar estes estados mentais aflitivos com a utilização de antídotos. Por exemplo, o altruísmo contraria a aversão, a ausência de apego neutraliza o desejo, e um entendimento das leis de causa e efeito remedia a falta de discernimento.
4. Contudo, estes antídotos não são eficazes para erradicar a causa primária do sofrimento, que é definida como o não-reconhecimento da verdadeira natureza última dos fenómenos.
5. O único remédio para esta ignorância fundamental é o entendimento da “verdade absoluta” ou “verdade última”. O que é a verdade última? É o entendimento de que, apesar de os fenómenos aparecerem, eles são vazios de uma existência inerente. Eles aparecem, mas não existem. Desta forma, o Budismo evita cair nos dois extremos errados do niilismo e do materialismo.
6. O Buda ensinou quer ao nível da verdade relativa, quer ao nível da verdade absoluta. O objectivo dos seus ensinamentos sobre a verdade relativa é o de, gradualmente, nos trazer à experiência directa da verdade última. Esta experiência transcende conceitos e palavras, e é o único meio de erradicar as causas da ignorância e do sofrimento.

Este último ponto foi elucidado durante um conjunto de ensinamentos dado em Abril de 2017, no Nepal, por Dzongsar Khyentse Rinpoche, sobre o Sutra do Coração, ou a Essência do Conhecimento Transcendente *. Ele chamou a atenção para a distinção fundamental que existe entre os ensinamentos que pertencem ao nível relativo (a verdade convencional), que são conhecidos por serem ‘expeditos’, e os ensinamentos que pertencem à verdade última.

Dzongsar Khyentse Rinpoche explicou que quando o Buda ensinou a generosidade, disciplina, paciência, diligência, meditação analítica e por aí fora, apesar de estas práticas serem virtudes importantes e benéficas, elas caem na categoria de meios hábeis que trarão o praticante na direcção de um entendimento da verdade última.

Nessa base, todos os aspetos culturais e religiosos do Budismo – os rituais, cerimónias, música e danças sagradas, mosteiros e por aí fora – caem na categoria da verdade convencional. É por isso que o 14.º Dalai Lama encoraja sempre as pessoas que vêm estudar com ele a ouvirem os textos fundamentais, em vez de adotarem os aspetos culturais do Budismo.
O estudo destes textos dissipa os estereótipos incorretos sobre o Budismo que são frequentemente exagerados, incluindo que o Budismo leva ao niilismo, ao individualismo, à indiferença face aos outros, à falta de envolvimento no mundo e por aí fora.

A um nível prático, para alguém que inicia a viagem no caminho até ao despertar, todas estas actividades virtuosas feitas com o corpo e a fala são essenciais. Contudo, o seu único objectivo é permitir à nossa mente gradualmente transformar-se desde a perplexidade até ao conhecimento, da mesma forma que nós damos líquidos a uma criança pequena, antes de a alimentarmos com alimentos sólidos. Assim sendo, o Budismo oferece um caminho até ao despertar – acompanhado por uma intenção deliberada de libertar todos os seres do seu sofrimento – levando a um conhecimento transcendente. O Buda expressou isto mesmo, quando ele atingiu o seu despertar: “Eu encontrei um Dharma que é como um néctar, pacífico, profundo, luminoso, livre de conceitos e não-construído.” Deste ponto de vista, o Budismo dificilmente encaixa nos critérios habituais que definem uma religião.

Existem um sem número de textos filosóficos e tratados que oferecem explicações detalhadas nos poucos pontos mencionados acima, mas em inglês, é possível consultar por exemplo, “Wisdom: Two Buddhist Commentaries” **, que oferece dois comentários sobre o nono capítulo do texto de Shantideva “The Way of the Bodhisattva”, um trabalho dedicado ao conhecimento transcendente.”

Notas:

* Os ensinamentos de Dzongsar Khyentse Rinpoche mencionados acima estão livremente disponíveis no Youtube, neste link: https://www.youtube.com/watch?v=qllOX8pYcNk&t=870s

** ‘Wisdom: Two Buddhist Commentaries’ são dois comentários ao capítulo nono do texto de Shantideva “The Way of the Bodhisattva”, por Khenchen Kunzang Pelden e Minyak Kunzang Sönam, Padmakara Translation Group, Editions Padmakara, 1999.