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Como Praticar?

 

Como começar? A prática de meditação apresentada aqui vem principalmente da tradição birmanesa de Mahasi Sayadaw, embora tenha uns laivos de alguns ensinamentos de outras escolas. Começamos com a meditação sentada, que pode servir como base da atenção plena em todas as outras posturas e actividades.

 

Encontra uma postura confortável, sentado de pernas cruzadas numa almofada, ajoelhado num banco de meditação, ou ainda sentado numa cadeira. Conserva as costas direitas, mas sem tensão. Deixa as mãos repousarem à vontade nos joelhos ou no regaço. Pode levar algum tempo e experimentação até encontrares a postura em que te sintas mais à vontade, mas ao praticar, rapidamente encontras “o teu lugar”. Fecha suavemente os olhos e deixa a tua atenção estabelecer-se na consciência da postura do teu corpo. Relaxa, sente o teu corpo tal como é. Podes fazer muito levemente uma anotação mental silenciosa ou pôr uma etiqueta – “sentar” –, para ajudar a mente a ligar-se a esta experiência. Enquanto relaxas mais e mais na consciência do teu corpo, abre-te para a experiência de ouvir. Presta atenção a todos os sons que surjam. Podem ser altos e até agressivos. Podem ser suaves barulhos de fundo. Pode ser o som do silêncio. Simplesmente ouve, como se estivesses a ouvir a tua música favorita. Não penses no que é que está a produzir o som nem antecipes o que pode vir a produzir-se. Apenas há a vibração do som, a aparecer e a desaparecer no espaço aberto e claro da tua consciência. Podes começar a notar algumas coisas em relação a esta experiência.

Os sons parecem surgir bastante espontaneamente e, quando a mente não está distraída, podem ser ouvidos sem esforço. A natureza da mente é desperta. Quando não estamos perdidos em pensamentos ou sonhos, ouvimos todos os sons com muita clareza e facilidade.

Conserva-te na consciência da tua postura, aberto aos sons conforme vão e vêm. Deste lugar de consciência ampla e aberta, começa a ligar-te com a sensação de cada respirar, conforme entra e sai do corpo. Deixa que cada respiração se faça no seu próprio ritmo, na sua própria maneira. Não há uma respiração “certa”. Isto não é um exercício de respiração, é um exercício de atenção. Repara como as sensações da respiração aparecem da mesma maneira que os sons, espontaneamente, sem esforço. Em que lugar do corpo sentes a respiração mais claramente? É nas narinas enquanto o ar as atravessa, ou é o movimento do peito ou do abdómen? Mantém a atenção concentrada no lugar onde as sensações do respirar são predominantes. Mais tarde, é possível estar simplesmente com cada respiração seja onde for que surja.

Usar a técnica de anotar mentalmente quando respiras ajuda também a estabilizar a atenção. Podes usar a anotação “entrar/sair” se sentires a respiração no nariz, ou “subir/descer” se sentires o movimento do abdómen ou do peito. Seja qual for a palavra que escolheres, é importante que a uses de uma forma suave, para não interferir com a experiência directa. Não estás a controlar a respiração com a anotação – a anotação é simplesmente uma ferramenta para manter a atenção no que está a acontecer. Conforme a prática de meditação se torna mais profunda, a anotação pode desaparecer, deixando simplesmente a percepção da experiência, mas no princípio da prática, a anotação pode ajudar muito.

A respiração serve como uma âncora, um objecto primeiro de atenção, ao qual podes voltar sempre e sempre. Este treino da atenção encontra-se em muitas tradições espirituais. S. Francisco de Sales expressou-o muito bem: “Se o coração vagueia ou está distraído, trá-lo suavemente de volta ao lugar. E mesmo que durante toda a hora não faças mais do que trazer o teu coração de volta, mesmo que tenha partido de cada vez que o trouxeste de volta, a tua hora foi muito bem usada.”

É bom lembrar que o nosso esforço é estar consciente de uma respiração de cada vez. Ou talvez apenas de meia respiração. Nas palavras do Buda “ao inspirar, sei que estou a inspirar; ao expirar sei que estou a expirar.” É muito simples. Mas frequentemente criamos a expectativa de que deveríamos ser capazes de ficar com a respiração a maior parte do tempo da prática. Depois, vemos que a mente vagueia logo após uma expiração, ou duas, tornamo-nos inquietos e desencorajamo-nos. Prestar atenção a apenas uma expiração, contudo, está dentro das nossas possibilidades.

Quando dirigimos a nossa energia para estarmos presentes apenas numa expiração, e mais outra, lentamente o poder da nossa concentração aumenta. Depois de sentar algum tempo, começam a surgir diferentes sensações, tal como dor, tensão, formigueiros, calor, pressão, desconforto. Noutras alturas, surgem outras sensações, mais neutras ou mesmo agradáveis. Vibrações, suavidade, tranquilidade, luminosidade. Quando uma sensação se torna mais predominante do que a respiração, deixa que a sensação se torne o objecto da meditação, fazendo uma leve anotação mental para conservar a mente receptiva. Vê se podes relaxar ao experienciar essa sensação, deixando-a simplesmente estar no espaço aberto da consciência, da mesma forma que par aos sons. Ao tornares-te mais atento a esta sensação física, repara no que acontece no processo da observação. Torna-se mais forte ou mais fraca? Muda de posição ou desaparece? Quando a sensação já não for predominante, volta a atenção para a respiração.

Pensamentos, imagens e emoções também aparecem durante a prática da meditação. Quando ouves sons ou segues a respiração, a mente vagueia, perde-se em pensamentos e fantasias. Logo que te dás conta da dispersão da mente, faz uma anotação, “dispersão”, “vaguear”, ou “pensar”. Qual é a diferença entre estar perdido em pensamentos e notar que estás a pensar? O momento de sair da distracção não deve ser desprezado. Se alguns padrões de pensamento se tornam repetitivos, faz uma anotação específica para esse tipo de pensamentos: “julgar”, “planear”, “recordar”. Ou se alguns temas ocorrem frequentemente, podes fazer a anotação “cassete família”, “cassete trabalho”, “cassete férias”, etc. Estas anotações ajudam-nos a desligar-nos dos pensamentos, de forma a poder vê-los como eles são – fenómenos vazios de passagem.

O processo do pensamento é espantoso. O mesmo fenómeno que domina as nossas vidas quando estamos distraídos, torna-se vazio e transparente quando estamos atentos. Dilgo Khyentse Rinpoche escreveu: “Uma vez que reconheçamos que os pensamentos são vazios, a mente deixará de ter o poder de nos iludir. Mas enquanto tomamos os nossos pensamentos ilusórios como reais, eles continuarão a atormentar-nos sem parar, tal como o têm feito através de vidas sem fim.”

Muitas pessoas na prática de meditação vêm imagens muito vivas. Podem ser lembranças, formas geométricas, ou fantasias imaginadas. Nesta prática particular de atenção plena, simplesmente fazemos a anotação “ver” e depois vemos o que acontece à imagem quando a observamos. Permanece, esbate-se ou desaparece? O conteúdo da imagem, embora possa ser fascinante, não é importante. Quando o pensamento ou a imagem desaparece, voltamos à atenção ao corpo, aos sons ou à respiração.

Estados mentais e emoções diversas também podem constituir uma parte importante de nossa prática e da nossa vida. É possível senti-las na claridade aberta da nossa consciência em vez de afogadas num oceano de apego a elas. Uma grande variedade de emoções surge quando nos sentamos: aborrecimento, inquietação, agitação, calma, paz, interesse, excitação, raiva, irritação, amor, compaixão, desejo, inveja, ciúme, depressão, bondade, equanimidade, felicidade. A lista continua. Todos estes estados mentais fazem cortejo na nossa mente tal como crianças pequenas no Carnaval, com diferentes disfarces. Vamos seguir o pirata, o fantasma ou a fada? Ou vamos olhar através do traje para a criança que está por baixo?

A nossa prática é abrir para o grande leque de diferentes disposições e estados mentais, sentir a energia particular de cada um, estar atento à experiência tanto no corpo como na mente, e deixá-los passar como nuvens que surgem e se desvanecem no céu. Quando a raiva surge, ou o amor, ou a alegria, é só a raiva a enraivecer-se, o amor a amar e a alegria a alegrar-se. Diferentes sentimentos surgem e passam, e cada um apenas expressa a sua própria natureza. Habitualmente, contudo, somos apanhados no mundo da emoção, identificando-nos com esses sentimentos, pensamentos e sensações. Quando isto ocorre, transformamos a corrente fluida da impermanência num sentido rígido de um eu separado.

Enquanto experiência de atenção, da próxima vez que te sentires identificado com uma emoção forte ou uma reacção ou julgamento, deixa a história e segue a sensação física até à contracção energética, muitas vezes sentida no centro do coração. Pode ser uma sensação de aperto ou pressão no centro do peito. Então respira e relaxa o coração, simplesmente permitindo que os sentimentos e sensações estejam presentes.

Vê se é possível estar com as emoções da mesma forma tranquila que com os sons. Podes fazer uma anotação muito leve do que a emoção é “raiva”, “calma”, “interesse”, “aborrecimento”, etc., e repara no tom da anotação. O tom em si é neutro ou reage, aceita ou rejeita? Quando praticamos a atenção plena destes diferentes sentimentos, dois níveis de compreensão emergem. Primeiro, podemos cultivar mais facilmente os estados positivos e deixar que os negativos se vão embora. E segundo, começamos a ver mais claramente a natureza não substancial e vazia de todos deles.

Outro factor poderoso a observar é a intenção. A intenção, ou volição, dá energia à mente para concretizar uma acção e possui o poder de trazer de volta resultados kármicos, tal como uma semente tem o potencial para germinar e crescer. Por vezes desprezamos o poder de uma semente, que parece tão pequena. Mas quando as condições estão presentes, uma pequena baga torna-se um grande sobreiro. As motivações associadas a cada intenção condicionam os resultados da acção. Quando a bondade, a generosidade, o amor e a sabedoria motivam as nossas intenções, o resultado é a felicidade. Quando a cobiça, o ódio ou a ignorância motivam as nossas intenções, o resultado é sofrimento…

Como a intenção representa um papel tão crítico nas nossas vidas, prestar atenção é de um interesse vital. Começamos esta prática notando as intenções óbvias que precedem os movimentos do corpo. Antes de mudares de posição, podes reparar na intenção da mente para mudar? Podes viver isto como um pensamento particular, como um impulso, ou simplesmente sabendo que vais mudar. Chamo à intenção o “estar prestes a”. Sabemos que estamos prestes a fazer alguma coisa antes de a fazer. Se nos mexermos mais devagar e deliberadamente, a consciência da intenção torna-se clara. Quando praticamos mais esta observação, as intenções que estão por detrás de outro tipo de actos também se tornam mais aparentes.

Quando estamos distraídos, simplesmente seguimos os muitos hábitos do nosso condicionamento. Quando estamos atentos, podem surgir os mesmos impulsos habituais, mas temos a escolha de agir ou não. Outro bom lugar de prática desta atenção é no reino da fala. Vê se podes notar a intenção de falar antes de as palavras saírem. Nesse momento, podes integrar a sabedoria do discurso hábil e escolher se queres expressar aquele pensamento em particular ou não.

 

 

Joseph Goldstein, One Dharma

trad. Margarida Cardoso