Ações do Corpo

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Matar ou ferir os outros fisicamente (ou a nós mesmos) é o primeiro dos actos prejudiciais. Matamo-nos uns aos outros, matamos animais como modo de vida ou por desporto, ou matamos criaturas por não as querermos no nosso espaço. Estes são atos de violência que se vão repercutir em nós no futuro. Mesmo no momento presente, vejam a separação, a contração e a alienação que criamos quando tomamos a vida de outrem. Paramos para pensar no outro como um criatura viva e sensível?

Por vezes a simples injunção “Não mates” leva-nos para o limite da nossa zona de conforto e a enfrentar algumas considerações éticas complexas. Um exemplo simples: os bichinhos potencialmente perigosos que não queremos na nossa cave. É simples colocar um veneno e fazer o problema desaparecer. Mas nesta situação, será que temos a vontade de gastar tempo e energia para explorar outras opções? Será possível capturar e remover em vez de matar? Mas noutras circunstâncias, mesmo estas boas intenções podem não resolver todas as questões. O que fazer quanto aos mosquitos que trazem malária? Simplesmente diremos “Sê feliz!” e não fazemos nada? O caruncho come o chão de nossa casa. O que fazer? Por vezes é difícil encontrar uma solução que não provoque dano.

O que é que não matar significa em termos da nossa alimentação? Estas perguntas surgiram mesmo no tempo do Buda. Um monge, ao tentar criar divisões dentro da ordem monástica, instigou o Buda a insistir que todos os monges fossem vegetarianos. Embora não causar dano represente um papel central nos ensinamentos, o Buda encontrou a via do meio entre os extremos da auto-complacência e da austeridade desnecessária. Reconheceu que dentro de algumas linhas directrizes, era importante que os monges aceitassem qualquer comida que lhes fosse oferecida quando saíam para mendigar. Não deveriam pedir que fosse morto um animal ou aceitá-lo se algum fosse morto especialmente para eles. Mas se uma família partilhasse a comida que estava a comer, então era aceitável para os monges recebê-la.

Como aplicamos isto à nossa cultura, quando a comida está muito bem empacotada no supermercado e não há muita ligação com a sua origem? Algumas pessoas vêm claramente a cadeia de acontecimentos que vai de um matadouro ao bife e não comem carne. Outras têm preocupações de saúde que as levam a comer produtos animais. Ou ainda, como em muitas culturas tradicionais, as pessoas aceitam os grandes ciclos de nascimento e morte na natureza e agem a partir dessa compreensão com compaixão e responsabilidade. Não há uma resposta certa a esta questão da alimentação. A nossa tarefa é estarmos atentos e conscientes da nossa sensibilidade, ter a boa vontade de nos predispor a investigar outras possibilidades, não tomar o acto de tirar uma vida de uma forma ligeira e fazer o que for necessário para manter um coração de compaixão.

A segunda ação prejudicial é roubar – tirar aquilo que não nos pertence. Para além de actos óbvios de roubo, roubar também deve ser considerado a níveis mais subtis. Em retiros de meditação intensivos geralmente desenvolvemos uma sensibilidade aguda em relação ao sentido de não roubar. Durante um retiro eu partilhava um quarto com um amigo e usei um pouco do seu champô sem pedir – uma coisa insignificante, na verdade, sobretudo sabendo que ele o teria oferecido se eu tivesse pedido. Mas algures na minha mente não me pareceu certo. No Vinaya, as regras dos monges Budistas, diz-se que não devemos pegar em algo que valha mais do que alguns cêntimos sem que tenha sido oferecido. Talvez o pouco de champô que eu tirei coubesse dentro desta regra, mas esta situação também me tornou consciente de um nível de cuidado com as possessões dos outros que me inspirou. Claro que também temos de encontrar a linha entre sermos impecáveis e sermos rígidos, de forma a refinar a nossa compreensão com um coração leve. Isto leva-nos de novo à consciência da nossa motivação, ao usar a letra da lei para nos lembrar do seu espírito

Às vezes roubamos ao não agir. Depois de ter acabado o meu tempo nos Peace Corps, voltei para casa passando pelo Nepal. Em Nagarkot, naquela altura, só havia um abrigo rudimentar com um quarto cheio de pequenas camas. Cada cama tinha dois lençóis. Quando o sol se pôs as pessoas foram dormir bem cedo, já que não havia aquecimento e a temperatura tinha descido rapidamente. Eu estava na cama, sentindo-me cheio de frio e antecipando uma longa noite pela frente. Muito mais tarde, apareceu um viajante. Parece que só havia um lençol na cama dele, e o encarregado do abrigo perguntou na escuridão se alguém tinha um lençol extra na cama. Dei-me então conta que eu tinha três lençóis. Mas cheio de frio, e apanhado na mente egoísta que procura o seu próprio conforto, fiquei ali sem dizer nada, pretendendo estar a dormir. Mesmo agora, trinta e seis anos depois, lembro-me da minha racionalização: “Não fui eu que pedi este lençol extra. Já estava aqui.”

Outros níveis de apropriação de coisas alheias podem ser explorados. Estaremos a consumir muito mais do que realmente necessitamos – mesmo tomando em linha de conta que não levamos um modo de vida de renúncia? Para cada um de nós, esta parte do ensinamento levanta a questão, “O que é moderação e o que é excessivo?” Podemos usar esta pergunta para nos criticar ou como um sério questionar das nossas vidas e das escolhas que fazemos. Acordar não necessita de ser algo de sombrio quando nos debruçamos sobre o que andamos a fazer. Podemos criar a nossa vida da mesma forma que um artista cria uma obra de arte. As nossas vidas são o médium através do qual expressamos a nossa sabedoria criativa.

O monge-poeta Ryokan é um grande exemplo de alguém que encontrou a alegria do contentamento. Viveu de 1758 a 1831, e passou a maior parte da sua vida adulta nas montanhas, meditando solitariamente, brincando com as crianças das aldeias quando ia pedir comida, e deixou-nos uma herança da poesia maravilhosa que iluminava a compreensão do seu dia-a-dia. Num determinada altura, em que vivia na sua cabana apenas com algumas possessões essenciais, voltou um dia e descobriu que mesmo os seus parcos utensílios para cozinhar tinham sido roubados. Olhou para o quarto vazio e escreveu este poema:

o ladrão deixou-a para trás

a lua

na janela

 

Penso em como reagiríamos se voltássemos um dia a casa e víssemos que tudo tinha sido roubado. Será que iríamos escrever: “O ladrão deixou-a para trás – a lua na janela”? Talvez não! Ryokan aponta para um sentido mais profundo de não roubar: a felicidade de ficarmos facilmente satisfeitos com as condições mutáveis da nossa vida.

A terceira ação prejudicial, a má conduta sexual, requer uma consideração atenta. A energia sexual é uma força tremendamente poderosa nas nossas vidas. Frequentemente, é quando sentimos a paixão do desejo que nos sentimos mais vivos e vibrantes. E contudo também sabemos que o desejo descuidado também pode ser muito destrutivo, para as nossas relações e para nós mesmos. Um dos meus momentos favoritos nas tradução Burmanês-Inglês aconteceu quando Sayadaw U Pandita falava sobre os perigos do desejo sensual. Depois de Sayadaw ter falado algum tempo sobre o desejo sensual, o tradutor transmitiu o ensinamento: “A luxúria faz o cérebro quebrar” (lust cracks the brain). Em muitos casos, isto resume tudo.

Precisamos de estar atentos a esta forte energia e aprender a usá-la habilmente. Dependendo do contexto particular das nossas vidas, diferentes acções podem ser apropriadas. Para monges e monjas que vivem a disciplina monástica, o celibato é de norma. Para pessoas laicas, a linha directriz é o princípio de não causar dano, frequentemente expresso por não cometer adultério. Precisamos de tomar em atenção que na excitação e na energia do desejo passional, não racionalizamos o comportamento que é enganador e desonesto. Não se trata aqui de uma moral puritana. Como é evidente pelas descrições do Vinaya, o sexo estava vivo, de boa saúde e era criativo na Índia antiga. Era precisamente porque a energia sexual era compreendida como sendo um elemento tão dinâmico na vida das pessoas que o Buda a incluiu no contexto do caminho espiritual.

Mas também para pessoas laicas, momentos de abstenção da atividade sexual podem oferecer discernimento, ao revelar muito sobre a natureza do desejo. Esses momentos mostram-nos o quanto o desejo sexual pode ser forte na mente e também que, como tudo o resto, passa. A percepção libertadora neste caso é que não há nada que tenhamos de fazer para fazer o desejo desaparecer. Se nos sentarmos e observamos, veremos que vem e finalmente vai por si mesmo. Esta compreensão é um grande alívio, pois começamos a sentir-nos menos conduzidos pela força dos nossos desejos, já não pensando que a nossa felicidade depende da sua satisfação. Podemos desfrutar dos prazeres dos sentidos quando surgem, mas deixam de ser a causa de ações prejudiciais.

 

De One Dharma, de Joseph Goldstein (tradução de Margarida Cardoso)