Ações da Palavra

 talking-therapyO segundo grupo de ações prejudiciais gira à volta da palavra. É incrível o quanto negligenciamos esta poderosa influência nas nossas vidas. Tanto sofrimento no mundo deriva da falta de atenção às palavras que usamos. O Buda escolheu a palavra justa como um aspecto do caminho para despertar, o Caminho Óctuplo; e das dez acções prejudiciais, quatro envolvem a fala. Isto deveria ser uma sineta de alarme a tocar antes de falarmos. Mas fazemos realmente da palavra uma componente do nosso caminho espiritual ou relegamo-la para algum lugar de menos importância nas nossas vidas? Quando prestamos atenção, vemos o quanto as nossas palavras afectam a nossa relação com os outros, condicionam as nossas mentes e trazem consequências kármicas para o futuro. O cuidado que possamos ter ao evitar a palavra prejudicial cria um vasto campo de tomada de consciência no nosso quotidiano.

Mentir é a primeira deste grupo de acções nocivas verbais. Há muita espécie de discurso falso, desde o pequeno exagero e inexactidões humorísticas, falsidades cujo objectivo é auto-protecção ou protecção de outros, até mentiras deliberadas com uma intenção malévola, que causam divisão e danos.

Uma história de um participante num retiro na Insight Meditation Society revela o quão facilmente podemos cair em hábitos de falsidade por embaraço e para auto-protecção. À noite, já tarde, um elemento do pessoal do centro entrou na câmara frigorífica para ir buscar alguma comida. Ela encontrou ali um meditante com a mão na caixa de tâmaras. “Posso ajudá-lo?” perguntou ela. “Não, respondeu ele, estou só à procura do técnico da manutenção”.

Porque mentimos? É avidez, ou desejo de auto-engrandecimento, ou medo de rejeição, ou inveja? Para além do dano óbvio causado pela desonestidade, as nossas mentiras são também um mau serviço que fazemos aos outros porque diminui a sua habilidade para confiar em si mesmos. Podem sentir que algo está errado nas nossas palavras, e contudo começam a duvidar das próprias percepções por causa da nossa recusa em sermos verdadeiros. Quando investigamos os motivos para além das nossas palavras, estes esclarecem tanto sobre os padrões profundos do nosso condicionamento. Esta consciência proporciona-nos o espaço para fazer escolhas sábias e mesmo corajosas.

Embora enquanto Bodhisattva, Shakyamuni tivesse cometido várias más acções durante as inúmeras vidas da sua jornada até à iluminação, desde o momento em que foi vaticinado que ele se tornaria um Buda, diz-se que nunca mais disse intencionalmente o que não fosse verdade. Foi este compromisso inabalável com a verdade que o trouxe sempre de volta ao caminho do despertar. Quando a verdade, em todos os seus níveis, é a estrela polar que guia as nossas acções, continuamos a sondar, a aprender, e a questionar ainda mais.

Na vasta compreensão budista sobre a vida, a morte e o renascimento, e com tantos planos de existência, há tantas coisas com mais valor do que a própria vida. Muitas das histórias Jataka são narrativas do Bodhisattva tanto na forma humana como na forma animal em que sacrifica a sua vida pelo compromisso com a verdade e compaixão para com os outros. Na medida das nossas possibilidades, será que podemos colocar este compromisso com a verdade no centro do nosso treino? O princípio é simples, mas surpreendentemente difícil de pôr em execução. É necessário uma grande atenção, vigilância e coragem para nos olharmos honestamente e para dizer a verdade. Mas tem o poder de transformar – e simplificar – as nossas vidas.

O segundo tipo de discurso prejudicial é o uso da linguagem áspera, encolerizada ou agressiva. As palavras ásperas têm o poder de magoar e necessitamos de estar conscientes da energia e motivação por detrás delas. Como nos sentimos quando nos falam de uma forma agressiva ou queixosa? Provavelmente sentimo-nos magoados, ficamos na defensiva, e possivelmente igualmente agressivos na resposta – não a melhor disposição para uma comunicação aberta. Então provavelmente também é assim que as outras pessoas se sentem quando lhes atiramos com palavras ásperas. A intenção não é a de suprimir quaisquer sentimentos que possamos sentir, mas comunicar de uma forma que encoraje a comunicação em vez da divisão. As pessoas questionam-se sobre o que fazer com sentimentos de cólera e o afluxo de palavras que por vezes se segue. Em capítulos posteriores discutiremos como lidar com toda a gama das nossas emoções de uma forma hábil.

Como sempre, o Buda viu mais profundamente nos nossos padrões de resposta inábeis e viu que os sentimentos que surgem em nós têm tanto a ver com o “como” ouvimos como com “o que” está a ser dito:

Bikkhus, estes são os 5 tipos de discurso que outros podem usar quando se vos dirigem: as palavras podem ser oportunas ou não, podem ser verdadeiras ou falsas, gentis ou ásperas, relacionadas com o bem ou com a maldade, ou ditas com um estado mental bondoso ou odioso… Posto isto, Bikkhus, devem treinar-se desta forma: as nossas mentes permanecem não afectadas, não usaremos palavras inábeis, devemos permanecer compassivos quanto ao bem-estar dos que se nos dirigem, com uma mente bondosa. E a começar com o nosso interlocutor, impregnemos o mundo com uma mente imbuída de amor/bondade – abundante, exaltada, incomensurável, sem hostilidade, sem rancor.

 

Ao ouvir, e sobretudo quando damos por nós a reagir de uma forma ou de outra, podemos aplicar a atenção plena ao que está a ser dito, simplesmente reconhecendo as palavras como sendo ou não oportunas, sendo verdadeiras ou falsas, etc., Este é o sentido da atenção plena. Não é concordar ou ser complacente, mas simplesmente reconhecer: “Sim, isto é o que está a acontecer”. Este reconhecimento e aceitação evidentes dá à nossa mente uma oportunidade de abertura, tornando possível uma resposta motivada por sabedoria e bondade em vez de cólera e rancor.

Falar mal de um ausente e bisbilhotar é o terceiro tipo de discurso inábil. Palavras desta natureza causam desarmonia e a perda de amigos. É interessante considerar por que é que os mexericos são tão prevalentes. Porque é que gostamos tanto disso? De uma certa forma, será que reafirma e reforça o nosso sentido de eu? É possível fazer escolhas em relação ao que dizemos; as palavras não precisam simplesmente de sair das nossas bocas.

O nosso discurso também pode ser uma espécie de mexerico sobre nós mesmos. Por vezes a nossa palavra é abertamente auto-referencial, voltando sempre as conversas para nós. Encontramos forma de sermos o centro das atenções na nossa comunicação, de ser o centro de atenções nas nossas vidas? Seria produtivo olhar para as nossas motivações nesses momentos. O poeta António Machado encontrou um antídoto para este hábito discursivo: “Se quiseres falar, primeiro faz uma pergunta, depois escuta.”

A última nesta lista de ações do discurso inábeis é a conversa frívola e inútil. Quantas vezes dizemos coisas que não têm utilidade nenhuma? Por vezes, em interacções sociais, faço o esforço de estar consciente da minha intenção de falar, tentando prestar atenção antes das palavras saírem. Nessas alturas noto que há frequentemente um impulso para juntar coisas completamente inúteis a uma conversa. Se usamos muito a conversa frívola, lentamente as nossas palavras tornam-se inúteis e perdemos o nosso próprio respeito assim como o dos outros.

As palavras impulsivas e fúteis podem ter más consequências. Elas brotam facilmente. E quando não prestamos atenção, não param. Quando investigamos os sentimentos por detrás das palavras, podemos descobrir motivos escondidos e confusos. Palavras arrogantes por vezes encobrem cólera; palavras iradas por vezes encobrem arrogância. Por vezes ainda lançamo-nos numa tagarelice inútil por um sentimento de falta de valor próprio ou por necessidade de aprovação e atenção. O discurso é uma frutuosa zona de exploração, e um lugar em que a atenção plena pode ser praticada ao longo de todo o dia.

 

De One Dharma, de Joseph Goldstein (tradução de Margarida Cardoso)