Ações da Mente

3634611427_914f6f67a2_zAs ações da mente são mais subtis do que as ações do corpo e da palavra. A primeira é a cobiça, a mente que quer sempre mais, o sentimento de que nunca temos que chegue. Na cosmologia budista, esta mente é simbolizada pelo reino dos espíritos ávidos. No mundo actual, poderíamos chamar-lhe “a consciência de catálogo” que esquadrinha obsessivamente através das páginas para ver o que mais poderemos querer. É o “querer querer” (wanting to want) e é uma doença que a nossa cultura não pára de alimentar.

A cobiça mantém a mente agitada e infeliz, muito longe da paz do contentamento. Não deveremos subestimar este hábito da mente, que, despercebido, pode facilmente levar ao sofrimento da inveja, do ciúme e da insatisfação interminável. Diferentes tradições de sabedoria lembram-nos que temos o poder de refrear as acções que causam sofrimento. Podemos ser felizes. Isso está nas nossas mãos.

A segunda ação prejudicial da mente é a malevolência, com todas as suas variantes: cólera, ódio, impaciência e mágoa, tudo formas de aversão. Podemos notar as sensações de contracção e endurecimento do coração quando nos perdemos ou nos identificamos com estados da mente malévolos. Estes estados de aversão surgem quando não obtemos o que queremos ou quando obtemos o que não queremos. Podem surgir como resposta a algo de desagradável, como a dor, a algumas emoções angustiantes, ou a situações de vida difíceis. Rancor de uma espécie ou de outra pode também surgir quando recordamos certos acontecimentos passados ou antecipamos futuros acontecimentos. Às vezes, só de imaginar que algo pode acontecer ficamos zangados ou perturbados. Mark Twain notou este fenómeno com a sua perspicácia habitual: “Algumas das piores coisas da minha vida nunca aconteceram”.

Geralmente surgem questões sobre o desgosto e a mágoa, que geralmente não associamos à aversão, contudo o Buda incluiu-os nesta categoria. Precisamos de grande subtileza aqui, de forma a que haja vontade de investigar as raízes destas emoções e, ao mesmo tempo, ter o espaço para as aceitar e senti-las profundamente. O desgosto e a mágoa surgem de uma perda, seja ela qual for. Qual é a nossa relação com a experiência da perda, que na verdade é apenas outra palavra para mudança? Temos aversão por ela? Temos apego ao que perdemos, fosse uma pessoa, ou uma situação das nossas vidas?

Fui primeiramente surpreendido pela diferença entre perda e mágoa quando reflectia sobre dois ensinamentos diferentes de textos budistas. Um é a história que revela o sentimento de perda sentido pelo próprio Buda. Na altura da morte dos seus principais discípulos, Sariputta e Moggallana, o Buda comentou que foi como se a luz do sol e da lua tivessem desaparecido do céu, de tal maneira importante tinha sido a contribuição dos dois para os ensinamentos. Isto é uma reflexão muito pungente sobre a magnitude da perda.

O segundo ensinamento é do Satipetthana Sutta, o discurso sobre as bases da atenção plena. Neste sutra, o Buda declara os frutos da prática: “Este é o caminho para a purificação dos seres, para triunfar do sofrimento e da lamentação, para o desaparecimento da dor e do pesar, para atingir o Nobre caminho, para a realização do Nirvana – nomeadamente, as quatro bases da atenção plena.”

Portanto como poderia Buda ter sentido a perda dos seus discípulos próximos e ao mesmo tempo declarar que o despertar conduz ao triunfo sobre o sofrimento e ao desaparecimento da mágoa? Talvez seja a aceitação e a consciência do sentimento de perda que torna isto possível, e é a não aceitação que se repercute em mágoa. Seria interessante explorar não só a aceitação da própria perda, que é frequentemente um processo que se estende no tempo, mas também uma aceitação do sentimento da perda, que pode acontecer a qualquer momento. Quando investigamos a nossa relação com várias emoções a nossa prática abre-nos para outros níveis de compreensão. O que pode parecer impossível e até não natural, a um nível, pode tornar-se a norma noutro.

Ao mesmo tempo, devemos estar exactamente onde estamos, não numa pretensão idealizada de onde gostaríamos de estar. Muitos de nós provavelmente não ultrapassaram o apego e a aversão, o orgulho e o medo, a mágoa e o desgosto. A questão mantém-se, podemos estar com estes sentimentos de uma forma hábil? Podemos ser abertos e experienciá-los sem nos agarrarmos a eles? Trata-se de encontrar o equilíbrio entre ir trabalhando com essas emoções enquanto contínuo processo de aceitação e largar mão e explorar a possibilidade de cortar os nossos apegos num momento de compreensão clara.

Quando uma casa está a arder, o fogo é extinto pela água. Da mesma forma, a pessoa sábia e confiante extingue a mágoa logo que esta surja, tal como o vento a afastar uma bola de algodão.
A pessoa que procura a sua felicidade deve remover a auto-imposta flecha do pesar, do desejo e do desespero. A pessoa que removeu a flecha, que está livre do apego e do pesar, tendo obtido a paz interior, está quieta
. (Sutta Nipata)

A última das dez ações prejudiciais é a visão falsa, básicas percepções falsas que se tornam a causa da dificuldade e do sofrimento nas nossas vidas. Uma visão falsa é por exemplo a crença que não há resultado kármico das boas e más acções, e por isso não importa o que se faça. Ao adoptar este ponto de vista, estamos a tentar navegar através da vida sem a luz do entendimento do que traz felicidade e do que traz sofrimento. Assim damos muitos passos em falso e vamos na direcção errada. Quando esta visão falsa está presente na mente, não paramos para considerar os resultados das acções, aonde conduzem, e se é aonde realmente queremos ir.

Outro aspecto da visão falsa é a crença que não há seres iluminados, aqueles que atingiram o fim do sofrimento. Durante muitos anos li este ensinamento e passei por ele apressadamente. Não parecia tão importante como outro tipo de percepções erradas. Mas o ponto de vista de que não há seres libertos no mundo tem mais implicações do que à primeira vista poderíamos pensar, porque implica que não há possibilidade de libertação para ninguém. Este modo de ver frequentemente personaliza-se em sentimentos de não merecimento, de falta de valor, sentimentos que podem ter sido condicionados por circunstâncias particulares das nossas vidas, mas que não reflectem a nossa natureza mais profunda e verdadeira.

Alguém uma vez perguntou ao Dalai Lama: “Acho que não valho nada como pessoa. Como posso trabalhar nisto enquanto estudante de meditação principiante?” O Dalai Lama respondeu: “Não se deve desencorajar. O seu sentimento de não ter valor está errado. Completamente errado. Está a enganar-se a si mesmo”

Ver a falta de valor como uma visão falsa de nós mesmos ajuda a fazer disso algo com que possamos trabalhar. Em vez de pensarmos que há algo de fundamentalmente errado com a nossa forma de ser, vemos que o próprio pensamento de não sermos merecedores ou de não termos valor é que é o problema. Quando reconhecemos a sabedoria genuína nos outros começamos a reconhecer a mesma possibilidade em nós mesmos. Este reconhecimento da sabedoria é um poderoso antídoto para os sentimentos de falta de valor, desânimo e desespero; é o grande presente do Dharma para todos nós.

Outro aspecto das visões falsas que discutiremos com mais detalhe nos capítulos seguintes é o profundamente condicionado sentido de “Eu”, de ego. Num nível relativo, claro, movemo-nos e falamos e agimos como indivíduos, como “eus”. Contudo a um nível mais profundo, e olhando com mais atenção, podemos ver através desta aparência e experienciar o lugar de não-separação dos outros e do mundo. Isto é a realização do não eu.

As dez ações prejudiciais, portanto, incluem três do corpo: matar, roubar, má conduta sexual; quatro da palavra: mentir, palavras ásperas, mexericos, tagarelice; e três da mente: cobiça, malevolência e visões falsas. Estas acções são perigosas – causam dano e sofrimento aos outros e têm um efeito pernicioso na nossa própria felicidade. Ao ler as advertências do Buda para evitar essas acções é como chegar a um sinal na praia que diz: “Perigo. Corrente muito forte”. Estamos a caminhar ao longo de uma bonita praia e quase a mergulhar no oceano convidativo quando encontramos o aviso: o Buda é o nadador-salvador e é ele que coloca os avisos.

Neste ensinamento muito directo, o Buda ajuda-nos a compreender a prática da liberdade com uma visão madura e de longo alcance. A liberdade não é simplesmente fazer o que queremos quando queremos. Isso é dependência. A liberdade é a sabedoria de escolher com bom senso. Se queremos libertar-nos das causas do sofrimento, estas são as dez acções a evitar.

De One Dharma, de Joseph Goldstein (tradução de Margarida Cardoso)

imagem © h.koppdelaney

 

JosephGoldstein_000Joseph Goldstein orienta retiros de meditação vipassana e metta desde 1974. É co-fundador e professor da Insight Meditation Society em Barre, Massachusetts. Em 1989, com outros professores e praticantes, estabeleceu o Centro de Estudos Budistas de Barre.

Joseph Goldstein começou por interessar-se pelo budismo enquanto voluntário do Peace Corps, na Tailândia, em 1965. A partir de 1967 tem estudado e praticado diferentes formas de meditação budista sob a orientação de eminentes professores na Índia, Birmânia e Tibete. É autor de A Heart Full of Peace, One Dharma: The Emerging Western Buddhism, Insight Meditation: The Practice of Freedom, The Experience of Insight, e co-autor de Seeking the Heart of Wisdom and Insight Meditation: A Correspondence Course