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Ética

 

Tendo desenvolvido alguma fé e confiança na possibilidade de despertar, somos agora confrontados com uma questão muito pragmática: “O que é que eu faço?” O Buda respondeu a esta questão com uma simplicidade incisiva e desarmante: “Não causes dano, pratica o bem, purifica a tua mente. Este é o ensinamento de todos os Budas.” A última linha do versos do Dhammapada aponta para a eternidade do caminho. Existiram muitos Budas no passado, muitos virão no futuro, e sempre o ensinamento, o “Um Dharma” da libertação permanecerá o mesmo. “Não causes dano, pratica o bem, purifica a tua mente.” O desenvolvimento de todas as grandes tradições budistas deriva dos ensinamentos deste simples verso.

Há centenas de anos já que todas as escolas budistas concordam nas acções que devem ser evitadas, e contudo, quando eu e os meus colegas começámos a orientar retiros de meditação neste país, sentimo-nos um pouco embaraçados ao falar de moralidade. Pensámos que as pessoas vinham para meditar e atingir a iluminação, não para ouvir sermões sobre o que está certo e errado. E, de qualquer forma, no nosso mundo pós-moderno, a moralidade não é um conceito relativo? Tornou-se rapidamente claro, contudo, que é impossível separar o comportamento moral e ético da realização meditativa.

Toda a viagem espiritual repousa na moralidade de não causar dano. Esta é a expressão do amor e cuidado que sentimos pelos outros e por nós mesmos. Sem esta base, a sabedoria não perdura. Especialmente em tempos de mudança de valores como o nosso, a importância da integridade e responsabilidade pessoal precisa de ser rearticulada uma vez e outra, de forma a não nos perdermos na confusão dos nossos desejos. O nosso desafio é dar a esta interrogação sobre os valores morais um sentido mais profundo, dar-lhe vitalidade, e fazê-lo sem nos tornarmos moralistas, preconceituosos e divisionistas.

De um ponto de vista budista, todos os preceitos morais são regras de treino, não mandamentos. Tomámo-los como uma forma de treinar o nosso coração, em atenção por nós mesmos e o mundo, e não como regras expostas externamente. Esta é uma distinção importante, pois permite-nos olhar para as nossas vidas e acções sem culpa e sem uma auto-crítica inibidora e ao mesmo tempo permite-nos assumir conscienciosamente a responsabilidade por aquilo que fazemos.

Todos queremos ser felizes, contudo, muitos não têm a mínima ideia do que leva à felicidade genuína. Ninguém quer sofrer, mas saberemos como abandonar as acções que apenas conduzem ao sofrimento? Diz-se que o que mais comoveu o Buda depois da iluminação foi ver pessoas à procura da felicidade, e contudo a fazerem precisamente tudo o que traz sofrimento. Há uma oração tibetana que diz: “Que tenhas a felicidade e as causas da felicidade. Que estejas livre do sofrimento e das causas do sofrimento”. Se quisermos ser felizes, temos de entender as causas e condições que conduzem à felicidade; temos de alinhar as nossas acções com as nossas aspirações. Esta compreensão é o presente compassivo que o Buda nos legou porque nos recorda a lei do karma, recorda-nos que somos herdeiros das nossas próprias acções.

 

As dez acções prejudiciais

Então, quais são as acções a ser abandonadas? Quais as acções que causam dor – a nós e aos outros? Há dez acções – três de corpo, quatro de palavra, e três de mente – que plantam as sementes do nosso sofrimento futuro. Será que podemos usar este ensinamento clássico, partilhado por todas as tradições budistas, para nos ajudar a despertar do torpor das nossas acções habituais? O Buda incentiva-nos a ser felizes, ao não criar as causas do sofrimento. Estes ensinamentos fornecem um simples ponto de referência para reflexão, não apenas no abstracto, mas talvez mais importante, nos momentos de verdadeira intenção. Isto é prática, não filosofia.

 

De One Dharma, de Joseph Goldstein (tradução de Margarida Cardoso)

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